Como se chega ao topo?

Joana Carneiro, directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, falou sobre o seu percurso profissional na 1ª Conferência da revista HR, em Março de 2011.

«Refuto o génio aplicado à minha pessoa. Sinto-me bastante normal, espero que seja esse um talento que tenha. Como se chega ao topo? Não sei muito bem. Na música a chegada ao topo não é mensurável, não se trata de dinheiro, a arte não é lucrativa do ponto de vista financeiro. A venda de bilhetes representa 23% do investimento e isto com alguma sorte. O lucro é a transformação cultural, aquilo que nos define como cultura. O topo para uma orquestra é a reputação, o número de CD que grava, o número de espectáculos que faz por ano. Para um maestro, pode ser dirigir em determinadas instituições, como o Metropolitan Opera, de Nova Iorque, ou ter cobertura mediática. Não conheço uma orquestra que não perca dinheiro», conta Joana Carneiro.

A directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley relembra que é a história que acaba por ditar o que vai sagrar na música. Partilha alguns casos, como por exemplo, “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinski, que na estreia impeliu um motim, o público exasperou-se, achou-a demasiado radical. Hoje é considerada um pilar essencial na sagração da música.

«A Orquestra Filarmónica de Los Angeles apresenta 3 a 4 espectáculos por semana, sempre com os 10 mil bilhetes esgotados. Em Berkeley não é assim. Quando cheguei à Orquestra de Berkeley, há quase dois anos, no papel de maestrina titular, tive que pesquisar para saber quem era a Orquestra. Era importante conhecer o legado da Orquestra de 30 anos de inovação musical e perceber a reputação do local. Como líder musical é importante conhecer a nossa comunidade. As orquestras dependem sobretudo de mecenato. E Berkeley é uma comunidade de pesquisa, onde vivem vários vencedores do Prémio Pulitzer, com uma tradição muito vincada dos anos 60, liberal e do “peace and love”. Todas as semanas existem paradas, ou porque querem comida orgânica ou a favor do Michael Jackson. Lá é possível ver de tudo, desde pessoas mascaradas, a cantar pelas ruas, a correr para trás, é uma comunidade especial. Tenho tentado criar confiança para atingir os meus objectivos. O primeiro grande objectivo é aumentar o orçamento para desenvolver a excelência da Orquestra e da Companhia. Consegui reunir fundos no valor de 100 mil dólares, valor sem precedentes. Como se cria esta confiança? Com a normalidade. Cada elemento tem que ser excelente para criar confiança. Tenho o privilégio de trabalhar com talentos de várias idades, são 100 almas únicas que querem atingir um fim comum: produzir a melhor obra de arte musical. Mas é difícil do ponto de vista mecânico lidar com 100 perspectivas diferentes. Por exemplo o Alegro [NR: andamento musical] vai de 120 a 140 batidas por minuto, o que significa que o que é expressivo para mim pode não o ser para o outro. Como na questão do Vibrato e isto para não falar da parte psicológica, é tudo muito complexo», partilha.

Joana Carneiro admite que o facto de ser mulher nunca atrapalhou o seu percurso profissional. «Agora, a idade sim, o facto de ser jovem. O talento está associado à experiência. Na parte oriental da minha família há muito o respeito pelos mais velhos, e é muito importante ter em conta essa experiência. No campo da Orquestra esse é o ingrediente. Ser maestro é uma profissão recente, a sua especialização deveu-se ao facto da música se ter tornado tão complexa a nível numérico. Eu aprendo à frente da minha Orquestra (100 músicos) e do público (2 mil pessoas). Para encontrar o equilíbrio tenho que me concentrar na preparação e não naquilo que os outros vão pensar ou na retribuição. O que é ser um talento? Mahler e Mozart trabalhavam 24 horas por dia, quase que tiveram uma transformação genética. Para mim talento é apenas uma qualidade que nos caracteriza, ter os neurónios ligados de forma genial para compor música. São pessoas que se comprometem, que têm alegria em fazer bem, destreza física, equilíbrio e realidade emocional, sabem comunicar, identificar e assumir o que têm de bom e identificar o que não têm de tão bom. Mais importante do que a originalidade é a identidade e na área da música é a paciência. Quanto mais reconhecido é o maestro e a Orquestra, mais há que ter paciência nesta construção diária e esperar pelo nosso momento na história da música. Houve uma coisa que me disseram que me trouxe paz: ‘Até aos 30 anos um maestro é um embrionário, aos 50 anos um jovem maestro e aos 70 talvez saiba se teve alguma intervenção’», conclui.

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