Opinião de Fernando Neves de Almeida

Country President Boyden Portugal

Em economias com muito peso do Estado e/ou economias pouco concorrenciais, a carreira profissional da generalidade das pessoas é relativamente previsível. Desde que não se faça nenhuma asneira, o tempo encarregar-se-á de nos fazer chegar ao topo (da nossa carreira). Claro está que esse topo poderá ser mais ou menos elevado de acordo com as nossas competências e esforço, das pessoas que conhecemos, do cartão político que temos, etc. No entanto, como disse no início, quanto menos concorrência e mais Estado, mais previsível é o futuro de cada um.

 Num mundo mais concorrencial, no entanto, a turbulência do mercado de trabalho e, logo das carreiras profissionais, começa a sentir-se. E sente-se de duas maneiras: vquando o crescimento é grande, a luta pelo talento transforma percursos profissionais que de outra forma seriam normais, em meteóricos. Quando a recessão se instala, a deterioração das carreiras profissionais ressente-se de muito mais do que simplesmente o mérito ou demérito pessoal e profissional.

De um ponto de vista dos indivíduos (esquecendo os efeitos na economia e a ideologia subjacente a cada modelo económico) qual das situações será melhor? Carreiras mais previsíveis ou, pelo contrário, maior incerteza sobre o futuro profissional?

Depende. E depende, essencialmente, da importância que os indivíduos e a sociedade que eles constituem dá à segurança. Eu cresci numa família de funcionários públicos onde o primeiro objectivo dos meus pais era conseguirem que os filhos tirassem um curso superior e, em seguida, entrassem para um banco ou uma seguradora ou, melhor ainda, para a função pública. Este modelo social de carreira profissional e desejo de segurança, que descrevo, existiu em Portugal, de uma forma marcada até à revolução de 1974 e, de forma cada vez mais ligeira, até aos dias de hoje.

Assim, direi que, para quem valoriza a previsibilidade e a estabilidade acima de tudo, os tempos não vão para melhor. Direi mesmo, é grande a velocidade de deterioração. Não só a crise aumenta a velocidade da mudança, como a própria legislação laboral se irá encarregar de possibilitar essa mudança muito acelerada.

Mas será que esta mudança é incómoda para todos? Não, claro que não. A situação para que caminhamos, é excelente para os inquietos, para aqueles que abraçam a mudança como uma oportunidade de transformar todo o seu potencial em resultados e felicidade. Para aqueles de maior maturidade que chamam a si a gestão do seu futuro profissional, ao invés das pessoas mais inseguras que gostam de viver alheadas da inevitabilidade da vida que é a mudança.

No entanto, nem tudo neste tipo de cenário é simpático para os indivíduos. Num cenário de maior fluidez no mercado de trabalho, da mesma forma que surgem mudanças inesperadas para melhor, outras surgem para pior. Nem sempre o expoente máximo da evolução profissional se dá no final da carreira. Muitas vezes atinge-se o topo aos 40 ou 50 anos para, posteriormente, regredir. E é essencialmente em situações de maior crise económica que acontece mais este tipo de situações. Alguém que é hoje todo poderoso e “cheio de si” amanhã pode ser um simples desempregado à procura de uma nova oportunidade. E há que saber gerir bem estas transições, sob pena de se cair em estados mais ou menos depressivos e de revolta ou auto piedade.

Tenho conhecido pessoas em todos estes estados e outras que lidam fantasticamente com a situação. Normalmente, as que melhor lidam com a situação são as que sentem mais apoio na sua rede social (amigos e conhecidos), derivado, talvez, de terem sabido lidar com o sucesso, quando atingiram o seu “auge”.

Um conselho que dou a todos os que estão no topo: limitem a arrogância que o poder, por vezes, induz. É importante tratar as pessoas da mesma forma, independentemente do poder ou importância que julgamos que temos.

Compreender e aceitar a dinâmica das carreiras que um mercado concorrencial proporciona, pode contribuir para a realização efectiva do potencial da cada um e para uma melhor optimização da produtividade enquanto sociedade.

 E a segurança? A segurança virá de se viver em uma sociedade produtiva, justa e que aproveite o que cada um tem de melhor para oferecer.

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