Liderança evolucionária

Todos estamos vinculados com a liderança. Exercendo-a ou, não menos importante, escolhendo o líder que melhor nos convém. Contudo, as relações não são algo totalmente intencional. Estando tantas vezes para além do próprio consentimento humano, resultam de uma leitura intuitiva, inconsciente. Às vezes, por modos de sentir, por modos de olhar, por modos de estar com o outro.

 

Por Paulo Vieira de Castro, director do departamento de Bem-Estar nas Organizações do I-ACT – Institute of Applied Consciousness Technologies (EUA)

 

O que compramos ou vendemos não são produtos ou serviços, são relações. É, pois, com base nessa ligação anímica/ imaterial que se funda a confiança, a segurança e a proximidade entre stakeholders, isto numa qualquer parceria ou negociação. A este propósito costumo contar uma história.

Duas pessoas encontram-se e conversam. Cada uma tinha uma nota de 5 euros no bolso. Quando se despedem, cada uma leva apenas uma nota, a sua. Se duas pessoas se encontram e cada uma tiver duas ideias, conversam e, quando se despedem, cada uma leva consigo quatro ideias. Não raras vezes, quando duas pessoas se encontram nasce, numa outra dimensão, uma terceira entidade a que chamo a alma da relação.

Então, neste infindável conversar e desconversar que é o mundo dos negócios, há algo maior que nos une: a alma da relação. E esta é uma realidade que as teorias económicas, sociais, políticas, têm vindo a ignorar ao longo dos tempos.

Sem forma, tempo ou espaço, esta ligação anímica é a força capaz de nos devolver à dimensão empática das relações. Esta sensação, uma vez manifestada, agrega, conforme referido, uma maior proximidade, confiança e segurança entre todos os parceiros. Só deste modo, nos abriremos á coerência, introduzindo uma segunda regra para este modelo de liderança: a essência da liderança é imaterial.

 

A origem da liderança é imaterial

O recurso à empatia permite a coerência na relação. Esta é inspiradora de todas as mudanças, em especial as de médio e longo prazo. Note-se que quando aludo à empatia em liderança, refiro-me a   uma instância subjectiva. Logo, a recursos imateriais, inspiradores e evolucionários. Empatia é, em poucas palavras, a condição de me colocar ao serviço do outro.

Por tal razão, deveremos   ter – igualmente – interesse pelas estratégias de origem (condicionante estratégico histórico). Só respeitando esta dimensão da relação poderemos garantir o resto do caminho com coerência, a condição óptima para decidir assertivamente. Novamente se revela a importância do imaterial.

Este é o verdadeiro poder da escolha, eleger a origem para um destino. Escolher só o destino, como se faz habitualmente, é puro engano, ilusão. Daí a importância de, nas organizações, nas famílias, nas salas de aula, voltarmos a respeitar as  estratégias de origem, partindo do sítio certo.

Resumindo, se existe um relacionamento anímico (incondicional), ou seja, se a relação possui uma alma própria e independente, fundando-se na dimensão (empática) para além do querer consciente, então, a origem da liderança é imaterial. Isto é verdade para qualquer recurso em liderança, seja poder, autoridade, rapport emocional/ psicológico, empatia, etc.

 

Empatia versus esforço

Ao pretendermos servir, pois liderar é servir incondicionalmente, colocamo-nos num padrão único de entrega e atenção pelo outro, isto com vista a uma liderança heróica. Na actualidade, só assim o líder será exemplo de inspiração.

Porém, existem muitos métodos para a liderança. Não tantos para ensinar a liderar, quase todos para apenas ensinar a querer liderar. Assim, surge a liderança como um acto que nasce do esforço impositivo.

Mais, os modelos de liderança ensinados nas nossas escolas de negócios orientam-se, quase que exclusivamente, para o aprender a conhecer (análise) e o aprender a fazer (acção). Esquecendo a importância de aprender a conviver (questão relacional/ sistémica) e aprender a ser.

Alternativamente a este esforço, proponho o foco na atenção e no cuidado, pois estes nascem (naturalmente) da empatia. Dando lugar à economia da atenção e do cuidar.

Assim, ao colocarmo-nos a um nível de pensamento mais nobre, exemplar, será mais fácil tomar decisões empáticas e, igualmente, coerentes. É pois aqui que se funda a liderança para um novo mundo.

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