Bem-estar e trabalho

Bem-estar e trabalho terão de ser debatidos do ponto de vista do ser humano, que busca activamente a sua realização integral, também, através do exercício profissional.

 

Por Paulo Vieira de Castro, director do departamento de Bem-Estar nas Organizações do I-ACT – Institute of Applied Consciousness Technologies (EUA)

 

Bem-estar é uma palavra composta por bem, cuja origem é bónus, implicando alta intensidade. E, estar é existir, viver. Contudo, a carga negativa da palavra trabalho vem de tempos imemoriais. Trabalho tem como origem no latim a palavra tripalium, designando o instrumento de tortura, usado para controlar os escravos, isto no tempo dos romanos. Assim, sucesso e fracasso são – agora – os dois maiores impostores da sociedade contemporânea, permitindo que a concepção do trabalho se tenha tornado em algo doloroso. Mas não tem de ser assim, acredito.

Certo é que o papel do bem-estar nas organizações terá de ser repensado. Consequentemente, bem-estar e trabalho terão de ser debatidos do ponto de vista do ser humano, que busca activamente a sua realização integral, também, através do exercício profissional. Afinal, é ele que nos toma grande parte da nossa jornada.

Bem-estar e inteligência
Frequentemente me questionam a propósito da “esperteza” das práticas por mim propostas para as organizações. Tal é compreensivo uma vez que o bem-estar é algo que não é ainda, bem compreendido como tempo produtivo. Isto no nosso país. E o que será inteligência? Inteligência é, grosso modo, o designo de estabelecer relações a propósito da informação obtida por todos os nossos sentidos, com o objectivo de alcançar um nível de conhecimento superior. Repito, “todos os nossos sentidos”. Se eu lhe pedisse para hierarquizar todos os seus sentidos, em que lugar colocaria a inteligência?

O principal constrangimento na prática organizacional, isto no que toca ao bem-estar, é que nem sempre a inteligência e a razão nos permitem agir de forma coerente. Porquê? Porque ambas nos colocam, demasiadas vezes, perante um duplo padrão de conduta. Sendo, pensando, falando e agindo diferentemente, consoante nos encontramos perante os desafios da vida privada ou da vida profissional. Este é, infelizmente, um exemplo demasiado comum nas organizações portuguesas. Por exemplo, eu não posso ser um Paulo em família, outro na empresa, outro perante os amigos, na escola, etc. É por aqui que todos os compromissos falham e, com isso, a existência humana tornou-se esquizofrénica.

Porém, vários são os níveis da consciência dos Recursos Humanos implicados num qualquer projecto. Esta propicía vínculos de confiança e proximidade essenciais ao bem-estar, em especial quando pretendemos tomar decisões estratégicas. Por isso ser só inteligente, ou demasiado racional, não é suficiente quando pretendemos a sintonização empática com todos os públicos relacionas. Para que isso seja efectivo, a intuição e o instinto devem ser acolhidos como estruturantes ao pensamento organizacional. É, pois, no alinhamento entre a inteligência, a razão, o corpo, o instinto e a intuição, que deveremos buscar o foco do bem-estar nas instituições.

Desde logo, convém salientar que nas organizações lidamos mal com a intuição porque, por norma, convivemos com a dimensão anímica de forma obcecada. Esta, assim como a própria mente, não repousa num ponto fixo no espaço. Intuição e instinto permitem-nos aceder a informação “primitiva”, transportando-nos para uma instância subjectiva que nos concede o reconhecimento que existimos e que podemos interferir no nosso meio de vida de diversas formas. Ambas se reportam a experiências passadas, onde encontramos velhas respostas para velhas questões.

Bem-estar e criatividade
As economias estão subjugadas perante o imperativo criativo e, a ser assim, teremos de dar maior atenção à intuição. Mas, em que escolas de gestão é que isso se aprende? Pois… Essa é também uma mudança que no nosso país há muito se exige.

Toda a criatividade é resultado da transcendência. Costumo dizer que, ainda que alegoricamente, ser criativo é ter já um pé do lado de um qualquer deus. Por que não lhes damos espaço dentro das organizações?

Para treinar/ harmonizar este lado da vida, deveremos recorrer-nos de práticas ancestrais como a meditação, o silêncio, o ioga, a gratidão, etc. Estas estão intimamente ligadas ao bem-estar e à serenidade no local de trabalho. Deste modo, a condição pré-cognitiva à intuição e à criatividade pode ser treinada através destes exercícios.

Em qualquer actividade empresarial, dependemos de processos de decisão com os mais diversos níveis e núcleos de influência, existindo uma enorme quantidade de comunicação informal que é depreciada. Isto por oposição à comum especialização/ formação na comunicação explícita. Esta última refere-se ao conjunto de regras dominadas, exclusivamente, pelo intelecto. Assim, com vista ao estabelecimento de laços mais fortes entre os membros de uma equipa, recomendo habitualmente a prática de artes cénicas.

Pessoalmente, acredito que a cultura de uma organização é, em grande, parte reflexo da escuta interior e da comunicação não verbal ou escrita, influenciando de forma pronunciada o bem-estar integral. Daí a enorme importância em desenvolver a intuição e a criatividade também nos ambientes de trabalho. Com tal propósito, costumo referir os exercícios realizados pelas escolas de teatro onde se desenvolve a escuta mágica/ intuitiva como forma de dar lugar à empatia resultante da sincronização neuronal entre todos os envolvidos.

Method Acting é um exercício de grupo muito importante na formação de ligações empáticas e energéticas. Começa-se por ter consciência de que respiramos. A maior parte de nós apenas sabe que respira. Para isso meditamos, fixando-nos na respiração, contando ciclos de 10 expirações, para depois voltarmos a um novo ciclo de 10, isto durante 15 minutos ou mais.

Colocamo-nos em circulo. Estamos, agora, prontos para o nosso treino. Aí, há um elemento que fala a primeira letra do abecedário, seguindo-o todos os outros até á letra “Z”. Duas regras. Não podem seguir uma ordem de participação pois isso seria fugir do processo aleatório. Sempre que dois, ou mais, dos elementos falarem a um mesmo tempo, sobrepondo-se, recomeça-se pela letra “A”. Não existe um tempo limite para este exercício.

Conforme se vai criando a conexão vão-se separando as pessoas, alargando o circulo. Com o tempo a equipa deverá fazer este exercício com tampões nos ouvidos. Esta é uma das práticas que permitem desenvolver competências para pressupor circunstâncias não dependentes do empirismo, de conceitos lógicos ou da comunicação formal. Afinal as organizações vivem, também, em todas estas dimensões.

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