O meu ano sabático

Testemunho de Margarida Barreto (ex-directora de Recursos Humanos da MSD), que embarcou numa sabática, onde não houve lugar para qualquer espécie de pausa.

 

 

Nada se compara à sensação interior de paz e bem-estar, nomeadamente em termos de saúde. No meu caso o caminho de aprendizagem foi longo e com alguns sinais vermelhos que me ajudaram a tomar a decisão de enveredar por uma vida mais equilibrada. Mas não tem de ser sempre assim.

Neste ano sabático que agora está a terminar, aprendi ou reforcei coisas que já sabia mas que não praticava assim tanto. E é isso que quero partilhar hoje consigo.

1)

Uma das primeiras coisas que aprendi foi a ter tempo para o que é realmente importante para Mim e para o que me mantém saudável e equilibrada. Parece muito simples mas durante a maior parte da minha vida dei sempre muito mais importância às necessidades de todas as Pessoas que me rodeavam, pessoal e profissionalmente, e “cuidar de mim”, mesmo, nunca foi uma prioridade. Uma vez numa Workshop de Liderança, um dos Facilitadores disse-me: “Já percebi que és excelente a cuidar dos outros, e quem cuida de ti?”Tenho observado que esta situação acontece com frequência, pelo menos com muitas mulheres – estamos muito ocupadas a cuidar de todos os outros, no trabalho, em casa e na sociedade em geral, mas esquecemo-nos e não disponibilizamos tempo para nós, para a nossa paz interior e o nosso bem-estar, sem os quais, ironia do destino, também fica mais penoso ajudar os outros (quem não está bem tem mais dificuldade em ajudar outros a ficarem bem).

2)

Aprendi também a apreciar mais e a sentir-me grata todos os dias, por tudo o que tenho, sei, sinto e sou, em todos e cada dia da minha vida. A chuva tem a sua beleza, o silêncio é inspirador, as árvores são maravilhosas na Primavera e Outono mas também são especiais despidas e cobertas de neve, os pássaros são super engraçados quer com as suas cantorias nalguns meses do ano quer a debicar, mesmo à nossa frente, bocadinhos de comida. Viver no meio de uma Comunidade Internacional e perceber diferentes hábitos, maneiras de viver e comunicar foi extremamente enriquecedor, tal como descobrir que a Comunidade Nacional valoriza e adora tudo o que de Muito Bom tem o nosso País quando reside no estrangeiro. Embora a distância de entes queridos por vezes nos doa, ter facilidade de comunicar com eles através das novas tecnologias não deixa de ser uma facilidade extraordinária que ajuda a minimizar a saudade. E, por falar em saudade, é curioso o modo como nos tornamos, naturalmente, os maiores e melhores Embaixadores de Portugal junto da Comunidade Internacional.

3)

Nunca me passou pela cabeça que o meu ano sabático fosse um ano de inactividade. Mas mesmo assim, pode parecer assustador para quem nos últimos anos trabalhou em média 12h por dia, parar e deixar de trabalhar. Como já não vou para nova, acho que o que aprendi nesta fase da minha vida me vai ser muito útil quando me reformar, nomeadamente para me manter activa. Então o que é que aprendi? Aprendi que é importante continuar a ter a rotina semana versus fim-de-semana, ou seja, continuar a levantar cedo como se fosse para trabalhar para o dia render mais. Aprendi que faz sentido ocupar o dia com diversas actividades e com pouca ou nenhuma televisão (no meu caso zero), que ler e estudar nos mantém ocupados e ligados ao mundo, que fazer exercício físico (no meu caso 5km de caminhada todos os dias) nos ajuda a manter saudáveis e fit, que contemplar e apreciar o que nos rodeia nos ajuda a dar valor a muitas coisas que antes não valorizávamos e, finalmente, aprendi que estar disponível para a comunidade e para quem mais de nós precisa é uma maneira de nos sentirmos úteis e realizados.

A vida é curta demais para ser desperdiçada e tem mais encanto quando estamos bem, connosco, com os outros e com o mundo em geral. Para mim valeu a pena fazer essa “viagem”!

 


Perfil Margarida Barreto:

Licenciada (pré-bolonha) em Psicologia pelo ISPA – Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Programa Avançado de Gestão de Executivos da Universidade Católica. Professional Certificate em Coaching pela Henley Business School (Reading University).

De 1980 a 2016 desempenhou funções de Gestão de Recursos Humanos em várias empresas e sectores de actividade, nomeadamente Industrial, Banca, Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Farmacêutico, tendo sido directora de Recursos Humanos da MSD de 2001 a 2016.

Actualmente é consultora e coach nas áreas de Change & Talent Management e Desenvolvimento de Líderes. Foi presidente da Direcção Regional Sul da APG de 2004 a 2010 e presidente da APG de 2010 a 2013.

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