A ética nos negócios vista por 4 especialistas

Na 20.ª edição do Barómetro Human Resources, o tema em destaque foi a ética nos negócios. Ouvimos os testemunhos de Paulo Pisano, chief people officer do Grupo Galp, Marta Lopes Maia, chief people officer do Grupo Jerónimo Martins, Rui Moita, director de Recursos Humanos da LG Electronics Portugal, e Paulo Santos, director de Recursos Humanos da Renova.

 

O problema são os outros

Paulo Pisano, Chief People officer, do Grupo Galp

Impossível não notar, nos resultados do barómetro, um certo descompasso entre iniciativas formais e a percepção da prática no que se refere ao tema da ética nas empresas. Se, por um lado, a grande maioria das empresas não somente adopta um código de ética, como também promove auditorias de verificação e pune incumprimentos, por outro, a maioria dos respondentes discorda de que as empresas portuguesas sejam eticamente responsáveis.

Isso porque a percepção do que seja uma conduta ética não advém da existência de regras e de seu cumprimento, mas de actos ou omissões que afectam a vida de indivíduos, sociedades e meio ambiente. Não se trata de compliance ou adesão a um Código de Conduta, mas de escolhas e decisões – grandes e pequenas, estratégicas e quotidianas – guiadas por um sistema de valores que permite uma vida em sociedade equilibrada, justa e sustentável.

E é fácil apontar para os líderes como “culpados”, uma vez que as suas decisões são mais visíveis e, muitas vezes, mais impactantes. Mas é o comportamento de todos o que forma e conforma a ética e os valores nas empresas (que tantos vêem a faltar segundo o barómetro), nas nossas decisões, dentro e fora do ambiente profissional.

É igualmente fácil apontar para a falta de ética na política, nos serviços médicos ou no uso de dados de redes sociais. O mais difícil é encontrarmos a falta de ética no espelho.

Cada um tende a justificar seus próprios actos irresponsáveis ou amorais como excepcionais ou necessários. Por exemplo parar em fila dupla por alguns minutos é aceitável se somos nós quem precisa de o fazer.

A criação de um entorno empresarial mais ético começa, mais do que nas normas ou auditorias, em casa e no nosso dia-a-dia, quando tomamos em consideração o efeito de nossas acções no próximo e demandamos a mesma consideração uns dos outros.

 

Agir em favor do bem comum

Paulo Santos, director de Recursos Humanos da Renova

É interessante verificar que no estudo apresentado muitos inquiridos não sabem/ não respondem sobre benefícios/ ou lucros em prol da ética…! Este ponto merece uma reflexão, pois a estrutura de valores em que assenta a nossa convivência humana está rapidamente a mudar e corre o risco de não ser substituída por outra de fundamentos fortes e de excelência.

Partindo das notícias que vamos colhendo nas empresas ou outras organizações, corremos o risco de algum pessimismo, tendo em conta os casos de corrupção, má gestão, agressividade ambiental, desequilíbrio de contas, injusta partilha de resultados para todos os intervenientes no sucesso ou insucesso da actividade que mantêm.

No entanto, há já muitos bons exemplos de organizações que perseguem objectivos de desenvolvimento humano através de uma gestão atenta, cuidadora e universal dos bens que estão na sua posse. Surgem regulamentos, modelos de transparências dos actos de gestão, equidade na valorização das pessoas, partilha de resultados económicos com os colaboradores e com as instituições sociais que habitam a sua ecologia, desenvolvimento da formação profissional, cuidados com a segurança e saúde no trabalho, equilíbrio do trabalho com a vida familiar e participação cívica.

Muitas empresas assumem como sua preocupação cuidar do mundo e das pessoas, e a sua gestão está cada vez mais comprometida para fazer o bem, por meio de uma gestão prudente, justa, forte e equilibrada. Em muitas destas organizações vive-se como num laboratório de fraternidade humana. “Acolhem-se” por vezes pessoas com deficiências de formação técnica e humana, com as quais a organização vai ter de lidar e formar para uma performance mais alinhada com a sua ética.

A chave de sucesso da empresa é uma organização pensada por pessoas, sustentada por pessoas e dirigida a pessoas.

 

Ética nos Negócios? Parece que sim

Rui Moita, director de Recursos Humanos da LG Electronics Portugal

Comecem por questionar o que “é ser ético?”. Respostas fechadas para estatísticas são simplistas. Que 91% defenda que a “a ética tem valor para os negócios”, não me surpreende particularmente.

O que ainda causa supresa e, em sentido contrário às principais conclusões deste Barómetro, é de que 70% dos empresários portugueses acreditam que só quem tem ligações políticas consegue ter sucesso nos negócios. Este número foi revelado há pouco tempo num relatório da União Europeia sobre “As atitudes das empresas perante a corrupção”.

O inquérito feito no final de 2017 pelo Eurobarómetro da Comissão Europeia mostrou que 58% das empresas portuguesas diziam que a corrupção era (é!) um problema nos negócios que fazem, mais 9 pontos percentuais que num inquérito idêntico feito há dois anos. E, perto de 86% argumentam ainda que a corrupção está generalizada no país.

Perante isto, continuamos a ter certos tipos de comportamentos, como alguns diriam, uma “forma de estar” bem portuguesa, em que regras de conduta, normas e processos e, até check-lists, procuram de forma exaustiva mas nunca conclusiva, colocar um ponto final.

Uma empresa é antes de mais um conjunto de pessoas. E 49% dos inquiridos neste Barómetro afirmou que “a maioria das empresas em Portugal são éticamente responsáveis”.

O que constatamos é que uma larga maioria neste Barómetro, ou tem vontade ou procura tê-la, de salvaguardar o que de credivel e sustentável deve ser a Ética Empresarial. Tal como em muitos outros casos, o encontro com a realidade é desmitisficador e, não raras as vezes, desolador.

Não basta entender ou responder que a Ética “deve existir”. E não é com check-lists avulsas e colocadas em prática para eliminar a falta de observância do óbvio que conseguiremos ultrapassar este estigma.

 

Cultura de transparência e de verdade

Marta Lopes Maia, Chief People Officer do Grupo Jerónimo Martins

A ética está longe de ser um tema teórico ou opcional. Neste contexto, o verdadeiro desafio dentro das organizações está na sua incorporação na gestão diária da empresa e na criação de uma consciência colectiva de prevenção. Na verdade, é um conceito que não deveria dar espaço à ambiguidade ou a diferentes interpretações mas, no mundo em que vivemos, é cada vez mais fácil encontrar diferentes matizes para uma mesma realidade ou comportamento.

Aos Recursos Humanos compete garantir a comunicação eficaz, clara e objectiva do Código de Conduta e dos princípios e valores nele inscritos, e a promoção de uma liderança integra. É, também, competência dos Recursos Humanos garantir que existem canais de comunicação que permitam a todos os colaboradores reportar situações de irregularidade, sabendo que, em qualquer circunstância, a organização irá investigar e actuar.

Acima de tudo, é fundamental a criação de relações de confiança com os diferentes stakeholders, baseadas na honestidade e na integridade, sendo a reputação a consequência e o reflexo do que fazemos e da forma como conduzimos os nossos negócios. Talvez por isso, à pergunta qual o valor da ética para as empresas em Portugal, 59% dos inquiridos responderam criar confiança perante os stakeholders e 43% que preserva a imagem corporativa.

Enquanto directora de Recursos Humanos de um Grupo presente em três países, acredito que os colaboradores querem trabalhar para organizações que conduzam a sua actividade de forma íntegra e onde se fomente uma cultura de transparência e de verdade, no presente e no futuro.

 

Veja os resultados do XX Barómetro aqui.

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