A primeira presidente mulher

Ao fim de 39 presidentes homens, eis que o ISEG, uma das instituições mais antigas de Portugal, elege uma mulher para liderar o seu destino. Clara Raposo é quem assume o “feito” e o desafio. Com ele, dois grandes objectivos: promover a internacionalização e uma melhor comunicação.

Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

 

Em tom de brincadeira, Clara Raposo diz que foi a vista do último andar que a fez aceitar o desafio de concorrer à presidência do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).  Consciente de que assumiu uma “grande tarefa”, nem chegou a celebrar, pondo logo “mãos à obra”. Poucos vezes volvidos, já está em fase final de um processo de certificação internacional, pois abrir o ISEG ao exterior foi um dos objectivos prioritários que definiu. Outra prioridade é comunicar melhor o “muito de bom” que a escola faz, desde logo a sua multidisciplinariedade e diversidade: aliar as soft skills e as ciências sociais, a uma base científica sólida, mais “hard” e quantitativa.

No mais, promove o “princípio básico” da liderança pelo exemplo e ouve sempre qualquer pessoa, estudante, professor catedrático ou funcionário de limpeza, com o mesmo tempo e respeito.

 

O que a fez assumir o desafio de concorrer à liderança do ISEG?
Com a aproximação do ciclo eleitoral normal do ISEG, o ano passado, mais ou menos por esta altura, vários colegas, de diferentes departamentos, começaram a incitar-me, sugerindo que eu talvez fosse uma pessoa diferente do habitual, que traria possivelmente uma nova dinâmica à escola.

 

Estava cá como professora catedrática…
Sim. Era, aliás, e ainda sou, a única mulher catedrática do departamento de Gestão. Não estava nada à espera de ser tão acicatada para avançar, mas a determinada altura achei que fazia sentido assumir um outro desafio na minha vida profissional. Tenho uma atitude bastante empreendedora e senti o apelo e o sentido de missão. E se havia apoio e vontade da instituição, pensei “vamos embora”.

 

É também a primeira mulher a assumir a liderança do ISEG, umas das instituições mais antigas de Portugal. Como é que vê este “feito”?
Apesar de, quando me candidatei, não ter pensado nisso nestes termos, a verdade é que, de facto, só ao fim de 39 presidentes homens é que chegámos à primeira mulher. E verifiquei também que nenhuma mulher se tinha candidatado sequer. Portanto, não consigo garantir que seja por falta de interesse ou por haver uma mentalidade que dificultava que isso acontecesse.

A posteriori, reconheço que, para outras mulheres, dentro e fora do ISEG, e até para as estudantes, é um marco, porque mostra a possibilidade disso acontecer com naturalidade. Ainda que durante a campanha tenha chegado a ouvir que as mulheres são mais emotivas, mais frágeis e que têm falta de estaleca quando surgem as dificuldades.

Mas é um momento diferente na história do ISEG e afinal acaba por ser a dita “escola tradicional” a ter uma mulher como presidente. E que nem sequer é ex-aluna da escola.

 

O que acha que fez a diferença e a levou a sair vencedora do processo eleitoral? A necessidade de mudar?
A “novidade” é sempre um risco, porque há sempre receio de alguma falta de experiência. Mas apresentei um programa com um conjunto de propostas que mostrou uma visão com bastante mais perspectiva e futuro para o ISEG. Reflecti bastante acerca da escola e acredito que fiz uma boa síntese dos pontos fortes e mais fracos e do nosso potencial para o futuro.

Por outro lado, tenho formação quer em Economia, quer em Gestão. E, sendo o ISEG uma escola que tem um departamento de Matemática com uma área quantitativa muito forte, e um departamento de Ciências Sociais, com áreas como a Sociologia e o Direito, nem sempre é fácil encontrar uma pessoa que goste genuinamente das várias áreas. Isso também pode ter contado a meu favor. E, se calhar, a minha boa disposição e o meu sentido de humor.

 

Mais concretamente, que propostas apresentou?
O ISEG tem uma grande tradição e não se pode dizer que esteja mal posicionada no mercado. É uma escola que atrai muita gente, com muita qualidade, e que forma muitos líderes. Mas há aspectos a melhorar. Aquilo em que apostei mais fortemente no meu programa teve a ver com a componente de internacionalização. Quebrar com a imagem de ser uma escola puramente tradicional, até algo antiquada, promovendo um espírito de maior abertura ao exterior, começando com acreditações internacionais e com o estabelecimento de parcerias.

O outro ponto em que insisti tem a ver com aproveitar a riqueza de áreas científicas que existe no ISEG. Por exemplo, há muito anos que temos grande experiência em diferentes áreas que conseguem dar resposta ou estudar os grandes desafios societais que agora a ONU estabeleceu. Temos pessoas que se dedicam aqueles objectivos. Mas precisamos comunicar melhor ao exterior a forma como damos contributos nestas várias áreas e a actualidade no que o ISEG. Foi outro dos focos do meu programa eleitoral.

 

O que acredita, ou espera que mude, com a sua liderança? Que cunho pessoal espera incutir?
Se pensarmos no “lado feminino” da questão, acredito que conseguirei, eventualmente, comunicar melhor o trabalho excelente que muitas mulheres têm feito no ISEG. É um aspecto a que passei a estar mais atenta e acho as mulheres do ISEG estão actualmente mais à vontade e sentem maior confiança na apresentação dos seus resultados.

Em termos de cunho pessoal, está ligado às propostas que apresentei. A internacionalização é muito importante. Assim que tomei posse peguei num dossier que considero fundamental, que é a acreditação internacional AACSB. A forma como estamos a apresentar a escola ao exterior, tem sem dúvida o meu cunho pessoal e da minha equipa.

E espero melhorar a comunicação. O valor da marca ISEG é muito grande mas não é tão reconhecido como podia, e devia, ser, não só a nível internacional mas nacional também. Aliamos coisas que se considerava ser tradicionais e que não estavam na moda há uns anos, e por isso as business schools especializaram-se em determinadas áreas, mas hoje já se começa a valorizar a necessidade de um bom gestor ter uma formação mais abrangente, e desenvolver as suas soft skills. O ISEG tem isso de forma muito genuína. Tem uma área quantitativa e tecnológica muito forte, com uma grande tradição de hard skills, mas também tem toda a contextualização social. Esta diversidade, e a combinação destas duas vertentes, tem que ser devidamente comunicada e valorizada.

Leia a entrevista completa na edição de Novembro da Human Resources.

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