Flash Talk: Empresas estão mais alinhadas com a sustentabilidade

Começa hoje, e decorre até domingo, a 11.ª edição do GreenFest. Tendo como tema a “Sustentabilidade 4.0”, remete para a tecnologia digital como facilitador da criação de novos modelos de desenvolvimento sustentável e de maior prosperidade.

Por Ana Leonor Martins

 

O mentor do projecto, Pedro Norton de Matos, revela que, em 10 anos de GreenFest, é notório um maior alinhamento das empresas com os valores da sustentabilidade. No entanto, a maioria das organizações ainda considerar o impacto social e a pegada ecológica como objectivos estratégicos. «Esta agenda só será acelerada por pressão dos consumidores que, ao dispor de mais informação, tendem a aumentar o nível de exigência», defende, acrescentando: «Estamos em crer que as pessoas, no seu triplo papel de consumidores, cidadãos e colaboradores de instituições são a grande eixo da roda da mudança comportamental.»

 

Este ano, o tema do GreenFest é a Sustentabilidade 4.0. O que significa este 4.0? Já ultrapassámos “as outras sustentabilidades”: 1.0; 2.0…? Ou seja, o tema já está interiorizado nos gestores portugueses?
A sustentabilidade 4.0 remete para a dimensão da incontornável tecnologia digital – tal como a Indústria 4.0 – que pode ser um excelente facilitador para a criação de novos modelos de desenvolvimento sustentável e de maior prosperidade. O tema enquadrador deste ano inclui também as oportunidades dos 17 ODS – Objectivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 da Unesco. O nosso País, as autarquias e outras instituições estão comprometidas com esses objectivos e o médio prazo ajuda a consciencializar que são as acções e comportamentos que adoptemos agora que moldarão o nosso futuro.

Tendo o futuro sustentável em mente, como estão as empresas a evoluir em Portugal?
É um caminho que se faz caminhando e, nestes 10 anos de Greenfest, é notório um maior alinhamento de muitas empresas com os valores da sustentabilidade, e as que o fazem têm um efeito multiplicador na sua cadeia de valor. A adopção do conceito do “triple bottom line” [sustentabilidade social, ambiental e financeira], em que o impacto social e a pegada ecológica são objectivos estratégicos, é um reflexo dessa evolução. Contudo, a maioria das organizações ainda está longe desse desiderato e a agenda só será acelerada por pressão dos consumidores que ao dispor de mais informação, tendem a aumentar o nível de exigência. Estamos em crer que as pessoas, no seu triplo papel de consumidores, cidadãos e colaboradores de instituições são a grande eixo da roda da mudança comportamental.

Neste âmbito, que evoluções em concreto destacaria como mais relevantes, nos últimos anos?
Entre outras, destacaria o crescente impacto de associações empresariais como o GRACE (Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial) e o BCSD (Business Council for Sustainable Development), que têm mais de 100 associados cada (alguns estão nas duas) que, através de programas estruturados,  têm vindo a desempenhar um papel determinante . Esses programas mobilizam e envolvem colaboradores das organizações associadas, com uma forte adesão. Cada um desses colaboradores é, ou passa a ser,um importante agente de mudança e transformação nas comunidades onde se insere.

Outro parceiro do Greenfest, que é um exemplo paradigmático da evolução do tema na ultima década, é a ABAE (Associação da Bandeira Azul Europeia), que para além da certificação de praias atlânticas e fluviais tem outros emblemáticos programas como o Eco-Escolas (mais de 1600 em todo o País); o Eco-Freguesias; o “GreenKey”, que certifica hotéis, restaurantes, marinas, etc; e os jovens repórteres do ambiente. É uma boa ilustração da transversalidade que os valores da sustentabilidade são difundidos por toda a sociedade.


E onde – em que temas – estamos, a nível empresarial, mais “atrasados”?
Creio que é precisamente na falta de alinhamento, mobilização e envolvimento dos colaboradores, por parte das lideranças, com os valores intrínsecos à sustentabilidade. Reforço que é um atributo da liderança das empresas que defendem com ou sem convicção os referidos valores.

A titulo de exemplo, no Greenfest incentivamos os parceiros a marcarem presença utilizando materiais reutilizáveis e a evitar fazer lixo, bem como outras reconhecidas boas práticas. Parece um paradoxo notar que são por vezes as grandes marcas a serem dissonantes com o conceito, colocando alcatifas de plástico ou utilizando e descartando materiais nocivos ao ambiente… sendo claro que os visitantes mais informados e atentos penalizam essas marcas por falta de autenticidade.

Normalmente, é na liderança que se coloca o ónus da sustentabilidade. Mas os colaboradores também terão um papel importante… concorda?
As lideranças têm um papel determinante pois marcam a pauta e devem liderar pelo exemplo. Contudo, é certo que cada colaborador tem a responsabilidade de ser agente de mudança e verá a sua missão facilitada se a missão, visão e valores da organização estiverem em sintonia com os comportamentos observáveis. Caso contrário, e para os colaboradores mais responsáveis, podem aproveitar a oportunidade para procurarem dinamizar acções de transformação da cultura empresarial. É uma questão de exercer uma cidadania activa, pois este conceito é válido para qualquer comunidade onde estejamos inseridos.

Fala-se cada vez mais no conceito de “smart buyers”. São quem está a tornar este tema “obrigatório” nas empresas?
É inegável que na sociedade da informação e conhecimento os consumidores estão mais e melhor informados, apesar do crescente fenómeno das “fake news”.

A informação esclarecida, dá um poderoso poder ao consumidor, pois em cada transação está a votar nesta ou naquela marca. As marcas dispõem de poderosas ferramentas tecnológicas, nomeadamente o “big data “ e os algoritmos que lhes permitem ter, em tempo real, conhecimento das preferências e tendências comportamentais dos consumidores. Esse poder imenso dos consumidores procura ser contrariado pelas campanhas massivas dos nomes poderosos de mercado, mas o “rei” é o cliente. E cada vez mais poderá impor a sua lei.

O que torna uma empresa sustentável? Para além da sustentabilidade económica, existem várias outras dimensões…
De facto, nos últimos anos  o conceito do “triple bottom line” foi-se impondo para as empresas que estão na vanguarda do movimento, pois os pilares da sustentabilidade são interdependentes e, a prazo, as empresas consistentes e bem sucedidas têm esses valores inscritos no seu ADN.

Que novidades vamos ver este ano?
São quatro dias de múltiplos conteúdos, apresentados em diferentes formatos – música, teatro, conferencias, ateliers/workshops,rastreios, showcookings, etc – e só uma visita ao site www.greenfest.pt ou à App é que permite ter uma visão pormenorizada da riqueza do programa. Algo de que tenho absoluta convicção é que ninguém dará por mal empregue o tempo que passar no Greenfest

Que tendências perspectiva na sustentabilidade empresarial? O que acredita que se vai tornar norma, num futuro próximo?
Acredito que os temas da pegada ecológica das empresas, assim como da responsabilidade social, será incorporado nos produtos e serviços que fabriquem ou comercializem.

As novas gerações, através de um compromisso intergeracional, terão condições de se impor enquanto consumidores e cidadãos responsáveis. Só assim teremos prosperidade sustentável.

 

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