Novas tecnologias e o mito do gap geracional

A digitalização, nome que comumente é dado a toda esta transformação digital a que estamos a assistir nos negócios e no mundo, é sem dúvida um momento de transformação.

 

Por Rita Sambado, co-fundadora da EUS School of Being e co-autora do livro “Master Your Life” 

 

Nas várias empresas com que tenho ultimamente colaborado, tenho sido confrontada com este enorme tema que nos é apresentado sob o nome de digitalização e que está a trazer uma série de desafios às organizações. À parte de toda a necessidade de ajuste de processos e de toda uma nova forma de comunicar que este ciclo exige, há ainda todo o impacto que este trajecto traz ao nível das pessoas.

As pessoas ditas “mais antigas”, têm dificuldade em acompanhar esta velocidade, em usar as novas plataformas, em ser parte activa neste ecossistema. Mesmo as que fazem um esforço, continuam muitas vezes (mal comparando) “a pensar em português para depois traduzir para inglês”.

– Para um número grande de pessoas isto traz um enorme sentimento de insegurança, de não pertença

Estas pessoas, pelo facto de terem vivido toda uma vida à margem desta forma de existir, pensar, ou agir, sentem-se de certa forma ultrapassadas, prescindíveis ou, no mínimo, inseguras na sua capacidade de contribuição. É toda uma nova forma de estar, um novo léxico, um outro ritmo, que não é natural para quem viveu outra forma de estar.

Assistimos assim, nas organizações, a movimentos de desagregação de grupos ou isolamento de pessoas que, devo dizer, me parece um contra-senso face à temática-chave de que esta nova Era nos fala e que é, exactamente, de integração. Reparem que toda a evolução tecnológica é suportada em conceitos de interligação, contacto, conexão; não em segregações ou separações.

– Existe uma forma mais simples e serena de olhar para toda esta temática

Gostava de olhar para esta temática com outros olhos, de trazer ao de cima a essência desta nova era e, a partir daqui, acalmar toda a tensão que se sente a este propósito.

Vivemos, cada vez mais, uma Era de aproximação, de comunicação, de interligação. É disso que falam os novos tempos e é isso que está reflectido nas novas tecnologias. Falamos hoje muito de partilha, e falamos de uma forma mais acelerada. Falamos de dar, antes de receber. Falamos de autenticidade e de transparência.

Evidente que isto coloca uma série de desafios, não necessariamente nas gerações mais antigas, mas sim naquelas que têm um modo de estar mais “antigo”, mais conservador, mais fechado; naquelas gerações que estão habituadas a funcionar com parâmetros mais cartesianos, com a folha de excel das projecções matemáticas, da taxa de conversão. Só que a taxa de conversão hoje joga com outros parâmetros. Joga com empatia, joga com consciência, joga com propósito. São estes os factores que nesta nova era abraçam e definem o sucesso (sustentado) das empresas. E é exactamente nestes que, do meu ponto de vista, encontramos a pista para a integração, com sucesso, destas duas realidades “geracionais”.

– As empresas têm que se afirmar como entidades participantes neste processo

Este é também um desafio – e uma oportunidade – para as empresas. Numa Era de maior autenticidade e de maior partilha, o contributo é palavra-chave. É assim essencial que as empresas passem a ver, em cada pessoa, um verdadeiro potencial de acrescento, que olhem para as suas pessoas e sejam capazes de descobrir e afinar o potencial individual de contribuição. Porque ele existe. E é inequívoco. Somos todos seres criadores por natureza, com algo para acrescentar ao mundo.

Ajudar a alinhar o contributo de cada colaborador com a sua verdadeira essência, com o seu talento, é o que acredito ser a próxima responsabilidade que as empresas vão, de uma forma consciente, chamar a si. É um terreno onde, sem dúvida, existe uma enorme oportunidade de fazer a diferença. Num cenário mais idílico, todos ambicionamos fazer o match quase que perfeito entre o que a pessoa gosta e sabe fazer, e o que a empresa precisa.

E acho que é exactamente na abertura para a montagem destes puzzles que podem surgir as maiores surpresas, as maiores oportunidades de crescimento. Para as pessoas e para as empresas. Porque é neste espaço que se inventam coisas novas; é neste espaço que se marca uma nova etapa.

E isso sim…pode ser um trabalho desafiante, mas também com enormes frutos para a nossa evolução. Porque isso sim vai fazer do mundo um mundo melhor.

– Todos temos (sempre) o nosso espaço, a nossa oportunidade de contribuição

E assim sendo, num cenário em que as pessoas são efectivamente colocadas na intersecção entre o que adoram e sabem, e o que a empresa precisa, não existe qualquer razão para não haver neste novo modelo espaço para todos. Afinal de contas, o que estamos a falar é de evolução humana. De dar, de acrescentar, de partilhar com o mundo, de ajudar a criar um mundo melhor; mais informado, mais evoluído, mais humano. Um mundo onde cada um de nós contribui a partir daquilo que é natural para si, do seu potencial, da sua força. Um mundo em que a matriz de colaboração empresa-colaborador é uma matriz com resultados enormes para o todo e ambas as partes.

E quem é que não sabe acrescentar neste modelo?

Termino com a partilha de uma informação que me deram quando iniciei a prática de yoga: a única condição física contra-producente à prática é a preguiça. Acredito que a vontade é o que determina o sucesso deste tipo de jornada.

 

Exercício

Algumas perguntas

Pode ajudar cada um de nós a ir mais fundo nesta temática questionarmo-nos sobre:

– O que posso eu acrescentar hoje à minha vida deforma a torná-la mais interessante?

– O que posso eu fazer por mim?

– De que forma é que o que eu gosto realmente de fazer, pode contribuir para ajudar?

E de um ponto de vista de liderança activa…

– Quais as qualidades de cada pessoa que comigo trabalha? Quais os seus verdadeiros talentos?

– De que forma é que conseguiria que cada um ficasse ainda mais alinhado no seu trabalho?

 

Este artigo está publicado na edição Julho/ Agosto da Human Resources Portugal.

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