O professor como gestor de pessoas

O professor é também um gestor de diversidade, um formador, alguém a quem são sistematicamente exigidas competências de gestão de equipas, de liderança responsável, de actualização constante.

 

Por Paula Campos, professora do IPAM

 

São tantos os desafios que se colocam ao professor enquanto profissional…É uma profissão desgastante e muito exigente, com a responsabilidade acrescida de formar e despertar mentes. O acto pedagógico muda, sempre que mudam os alunos, e é aqui que se joga o difícil e fascinante desafio de gerir pessoas.

Esta crónica corresponde a um momento de reflexão sobre uma das minhas paixões enquanto pessoa e profissional: a educação e os seus profissionais. Até porque continuo a acreditar que a grande revolução das mentalidades só se consegue através da educação e da qualidade dos profissionais, que no dia-a-dia vão gerindo com sucesso os múltiplos desafios com que se confrontam.

Muito se tem falado na praça pública sobre as lutas reivindicativas dos professores, mediadas por sindicatos, que vão pressionando governos, também eles pressionados por orçamentos apertados.

Pouco se fala da parte mais importante, mais bonita e sedutora da profissão; aquela onde tudo acontece e onde a intensidade desse acontecer deixa marcas, mais ou menos profundas, na vida de todos quantos se cruzam nesta tarefa do existir, a relação pedagógica.

Acredito que não existem profissões melhores ou piores, mais exigentes ou menos exigentes, mais diferenciadas ou menos diferenciadas, no entanto, acredito que há profissões que transcendem muito o seu perfil de função. Ser professor é uma dessas profissões e só ouso falar dela porque a sinto no meu dia-a-dia, e há profissões de que só se consegue falar, a partir do saber da experiência feito.

O professor pode ser um “expert” na matéria que ensina, pode ter muitos anos de serviço, que teoricamente lhe dão experiência e sabedoria, pode dominar metodologias e técnicas pedagógicas inovadoras, mas se for incapaz de acender paixões em quem aprende, fica circunscrito a uma actividade solitária que quase sempre leva ao desgaste e ao desânimo aprendido.

O domínio do conhecimento científico é hoje um campo amplo e de fácil acesso. Com os novos formatos de formação, todos hoje podemos melhorar os conhecimentos e matérias que leccionamos, à distância de um “click”.

Quando entramos numa sala de aula, levamos o conhecimento estruturado, as metodologias preparadas, os objectivos definidos, mas nunca sabemos e dominamos o que vai acontecer. De repente, damos conta que temos muitos olhos fixados em nós. Uns numa atitude expectante de quem quer aprender, e que vai exigir o melhor de nós ao nível do conhecimento; outros desafiadores, de quem percebe que tem de estar ali, porque o sistema obriga, ou por outro tipo de motivações quase sempre exteriores a si próprios e à sua vontade, exigindo de nós engenho e arte para ensinar, quem não quer aprender.

Estamos a falar de Gestão de Pessoas, de expectativas, de gestão de carreiras, de gestão por competências, estamos a falar da gestão da diversidade que muitas vezes exige de nó, malabarismos, criatividade para desenvolver novas metodologias de ensino, ensaiar novas estratégias, desenvolver novas competências capazes de responder a tanta diversidade, e ainda, fazer tudo isto com sucesso.

E o clima social da aula? Têm noção da sua intensidade? Há alunos que falam enquanto transmitimos conhecimento, outros calam quando pedimos para falarem, outros ainda exigem foco e tutoria constantes porque têm objectivos audazes e estão apostados em aprender a sério. Tudo isto acontece em momentos diferentes, com registos emocionais diferentes, com consequências diferentes para uma acção exigente, porque muito diversificada. E, ao fim de algum tempo, ainda no mesmo dia, novos olhos, novos sentires, novos desafios e exigências.

Tudo isto seria, já por si, exigente e desafiador, se correspondesse a um acto único de intervenção, no entanto, esta experiência repete-se muitas vezes no dia, muitos dias na semana, muitas semanas no mês, levando, muitas vezes, a um desgaste e cansaço, que esbate o desafio e entusiasmo iniciais, só geridos por artes mágicas de quem é apaixonado pelo que faz, de quem se reinventa cada dia e procura formas criativas de sucessivos reequilíbrios psicológicos e emocionais.

O professor é também um gestor de diversidade, um formador, alguém a quem são sistematicamente exigidas competências de gestão de equipas, de liderança responsável, de actualização constante. Ao professor, tudo é exigido, competência para ensinar, capacidade de dominar diferentes perfis comportamentais, atitude e liderança para gerir os muitos conflitos que acontecem na sala de aula, resiliência, e muita capacidade de resistência à frustração, até porque são muitas as horas de trabalho fora da escola na preparação de todo o trabalho de suporte a cada aula, a cada projecto que se desenvolve.

Os bons professores, sim, porque é destes que estou a falar, não trabalham para terem prémios e serem reconhecidos, como aliás é usual em muitas empresas que trabalham com boas práticas de Gestão de Pessoas.

No entanto, a “pessoa de cada professor” ficaria feliz, se pelo menos sentisse que existe um reconhecimento social pelo contributo da sua actividade profissional. São múltiplos os desafios que numa sociedade em transformação se colocam a este profissional, e eu gostaria muito de sentir que os professores são pessoas felizes, até porque, como disse Ruben Alves: “Ser mestre é ensinar a felicidade”.

 

 

 

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