Opinião: Cupcakes e robôs

Tal como os queques se tornaram cupcakes, os empresários dos dias de hoje transformaram-se em entrepreneurs e as recém-criadas empresas em startups. E os recém-licenciados? Unemployed.

Por Teresa Ribeiro, directora de Marketing na bwd

Na qualidade de profissional de Tecnologias de Informação (TI), faz-me alguma confusão todo o hype que se instalou em torno do digital no nosso país.

No meio de todo este exagerado uso de estrangeirismos, os profissionais de TI, como eu, correm o risco de serem percepcionados como pretensiosos snobs (até no momento de nos categorizarmos conseguimos recorrer aos estrangeirismos) satisfeitos com a ideia de que o nosso país e as nossas empresas estão muitíssimo atrás do que se faz lá fora.

Há também os que defendem que aquilo que realmente faz falta a Portugal é o “talento” (seja lá o que isso for). Talento para investir em tecnologia só porque é giro e de alguma maneira faz todo o sentido, questiono? Sou forçada a concordar: observo em vários empresários portugueses a relutância em investir no que quer que seja, apenas porque alguém os quer convencer de que o digital é a chave e solução de todos os problemas.

Na qualidade de “pessoa-recém-saída-da-faculdade”, denoto em todo este histerismo que, pelo menos, algo de bom brotou: o interesse acrescido dos meus pares (desculpem, dos meus peers) em fundarem as suas próprias empresas e procurarem criar os seus próprios empregos em vez de ficarem à espera que os mesmos lhes caiam do céu. E isto conforta-me.

Apesar de trabalhar em Marketing de Tecnologias há cerca de 10 anos, tendo acabado recentemente um mestrado, tive oportunidade de observar a cruel realidade da procura de emprego dos dias de hoje. Há histórias de todo o género, dos estágios não remunerados oferecidos por empresas sedeadas numa ponta do país, a recém-licensiados residentes noutra ponta, revertendo toda a lógica de ter um emprego, porque, bem vistas as coisas, tudo isto não passa de um incentivo ao turismo do país.

Se queremos ter o luxo de ter um emprego, temos de o pagar e fazer um erasmus interno. Qual descentralização?! Há mas é falta de talento. Lá porque se fez o curso na faculdade dos rankings à custa do endividamento dos progenitores, que insistiram que também era bom para o CV pertencer à associação de estudantes e à tuna e fazer quatro cursos de línguas e dois de informática, não quer dizer que se tenha talento e se esteja apto a ter um emprego. Mas que petulância!

Estamos, portanto, não porque nos sentimos realizados no papel de possíveis empreendedores, mas por força das circunstâncias, a ser empurrados para a criação das tais startups. Ou então a ir para as Web Summits desta vida tentar perceber como os outros tiveram a habilidade de convencer business angels ou anjos de negócios a investir nas ideias inovadoras e disruptivas.

Os meus colegas engenheiros informáticos acharão uma certa piada. Ainda não estão a acabar as últimas cadeiras do curso e já estão a receber chamadas para entrevistas porque precisamos deles para criar todo este hipotético ecossistema de empresas super digitais que vai alavancar toda a economia portuguesa.

Mas nem tudo são rosas e vem aí uma grande calamidade que vai arrasar com os empregos deles também. Com certeza devem já ter ouvido falar… a inteligência artificial. Pois é, vêm aí os robôs usurpadores de emprego humano. Robôs malévolos e sacanas que tiveram um coaching intensivo em usurpação de emprego. Mas o propósito da inteligência artifical não era o de auxiliar as empresas e acabar de uma vez por todas com o trabalho repetitivo? Não foi criada pelas mãos dos próprios humanos?

Enquanto como um cupcake, constato, em apenas cinco segundos de pesquisa, que, de facto, ainda não há ainda estudos que comprovem que os robôs vão acabar com a humanidade, o que não impede que se insiram neste triângulo pouco virtuoso de despemprego e startups. Não temos emprego por causa dos robôs, criamos startups para gerar esse mesmo emprego e os culpados disto tudo são os empreendedores.

 

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