Perante a automação, a palavra-chave é adaptação

Precisamos de parar de produzir “tarefeiros” e desenvolver mais líderes, inovadores e empreendedores.

 

Por Ricardo Marvão, director-geral da SingularityU Portugal

 

O rápido crescimento da tecnologia irá transformar inúmeros sectores e criar novos. Irá, sem dúvida, revolucionar a força de trabalho como a conhecemos hoje e é nesta altura que especialistas de todo o mundo começam a questionar: que empregos irão desaparecer? Quantos serão criados? De que forma se vai redefinir a progressão de carreira? E de que forma todas estas mudanças irão influenciar a nossa vida quotidiana?

A difusão da conectividade e da computação estão a descentralizar a força de trabalho. Hoje, podemos trabalhar em qualquer lugar do mundo, escolher com quem trabalhamos, quanto tempo trabalhamos e o que queremos fazer das nossas carreiras. Empresas como o Airbnb, a Uber e outras plataformas digitais são pioneiras em facilitar a forma como é possível ganhar um rendimento extra.

Apesar deste cenário, as tecnologias emergentes têm também gerado alguma preocupação sobre o potencial desaparecimento de determinadas funções, especialmente quando as máquinas se tornam habilitadas a desempenhar complexas tarefas.

Mas teremos o outro lado da moeda: a automação está também a ajudar a criar novos empregos. É uma realidade, e podemos comprová-lo olhando para um dos maiores retalhistas do mundo.  Graças, em parte, à implementação de mais robôs nos centros de logística, a Amazon conseguiu reduzir custos de envio e ter impacto nos hábitos de compra do consumidor: o transporte mais barato fez com que mais clientes recorressem à loja online, o que levou à contratação de mais colaboradores para darem resposta à crescente procura.

Por sua vez, no Reino Unido, um relatório da Deloitte, feito entre 2001 e 2015, concluiu que a tecnologia contribuiu para a perda de cerca de 800 mil empregos, mas também criou cerca de 3,5 milhões novos e com salários mais altos.

A mentalidade de “automatizar e eliminar” não é constructiva, pois cria uma cultura de medo entre líderes e colaboradores. O aumento da automação não deve ser focado na substituição de pessoas por máquinas – haverá sempre a necessidade de pessoas. Se nos dias de hoje as máquinas assumem um papel mais relevante nas nossas tarefas diárias, precisamos então de começar a encontrar áreas nas quais os humanos trabalharão no futuro e que, provavelmente, ainda não existem. Um relatório de 2018 do Institute for the Future indica que 85% dos empregos que irão existir em 2030 ainda nem sequer foram inventados.

Neste sentido, e em linha com a missão da Singularity University, instituição que ensina a lidar com as novas tecnologias e a aplicá-las nos desafios dos negócios e da sociedade, há também que repensar o nosso sistema educativo e capacitar a sociedade para saber lidar com estas transformações. É essencial que as instituições de ensino se foquem nas soft skills que realmente diferenciam os humanos: curiosidade, imaginação, criatividade, inteligência emocional, pensamento crítico e colaboração são essenciais. Além destas, actividades que envolvem competências de tomada de decisão, interacção humana ou criatividade são ainda difíceis de automatizar.

Precisamos de parar de produzir “tarefeiros” e desenvolver mais líderes, inovadores e empreendedores. Precisamos de incentivar a aprendizagem, a resolução de problemas complexos e a importância de arriscar, pois é a única maneira da geração futura continuar relevante no mercado de trabalho. Por outro lado, à medida que passaremos a desempenhar trabalhos que exigem mais criatividade e interacção, o próprio conceito de “trabalho” poderá tornar-se mais interessante, levando, provavelmente, muitos de nós a ser mais felizes e realizados no campo profissional.

A realidade é que o avanço tecnológico não vai abrandar, deixando-nos sem outra escolha a não ser adaptar-nos. Porém, acredito que teremos mais tempo para esta adaptação do que pensamos.

 

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