Que qualificações e competências  4.0 para o futuro?

Até 2025, estima-se que se vão perder sete milhões de empregos na Europa devido à revolução 4.0. Para nos adaptarmos aos novos tempos é preciso “aprender diariamente” e saber aprender ao longo da vida.

 

Por Margarida Segard, adjunta de direcção de Formação do ISQ

 

A formação é um instrumento fundamental de desenvolvimento e de mudança. A revolução 4.0 existe, veio para ficar e para progredir. Não se trata apenas de digitalização. A digitalização é o suporte, o instrumento das disrupções na economia, na cultura de gestão e de formação, e tem impactos sociais, nas nossas vidas, nas nossas famílias e nos nossos empregos. Neste cenário, a formação profissional terá uma forte intervenção, com a missão de preparar os jovens para empregos de futuro, qualificar, actualizar e requalificar os adultos.

As estimativas apontam para a “perda de empregos” na ordem dos sete milhões de postos de trabalho até 2025 devido à revolução 4.0. O ISQ, que integra o Comité Nacional 4.0, que tem sido um grande mobilizador destas questões ao nível europeu e nacional, tem lançado alertas para a necessidade de acelerar, em toda a Europa, processos de formação para a requalificação de adultos e preparação orientada dos jovens com idades entre 13 e os 25 anos, através de  cursos de formação profissional.

Os números mostram esta urgência. Estudos apontam para uma perda de cinco milhões de empregos na Europa já nos próximos três anos (até 2020), 54% dos empregos estão altamente vulneráveis e a revolução terá certamente impacto em todos os empregos existentes, qualificados e não qualificados. Confesso que tenho uma visão muito mais optimista, como alguns investigadores internacionais.

Por outro lado, quando equacionamos quais as competências e empregos para o futuro, são muitas as dúvidas, mas existem já algumas projecções desconcertantes: dois terços das crianças que estão a frequentar o ensino básico na Europa trabalharão em empregos que ainda não existem; terão seis empregos em cada 10 anos, contrariamente à nossa geração, que tem dois a seis empregos durante toda a vida; metade dos cidadãos nos Estados Unidos da América serão freelancers em 2020. É neste cenário que temos que agir, rapidamente e diariamente.

 

Aprender ao longo da vida

Para nos mantermos a par das mudanças, que são diárias e não vão parar de acontecer, todos temos de “aprender diariamente” e saber aprender ao longo da vida. Os cursos de formação serão um bom suporte de aprendizagem estruturada e formal, mas outras formas de aprendizagem informal devem ser estimuladas e valorizadas. Temos de “aprender a aprender” para “lifelong learning”. Aprender a aprender passa a ser uma competência “core”, no rol das soft skills. Na realidade, a capacidade de aprender diariamente passa a ser uma hard skill da Indústria 4.0.

Acredito que a formação é parte da solução e tem que ser implementada de forma integrada com as políticas públicas de inovação e internacionalização de empresas e, consequentemente, de alteração de modelos de negócio e de melhoria de competências de todos os trabalhadores. E aqui incluo dirigentes e profissionais altamente qualificados.

Estaremos a falar apenas de competências digitais? Nem pensar! É muito mais alargado; requer mudanças em muitas áreas e a muitos níveis nas organizações.

 

As novas competências new color

Existem, pelo menos, seis grandes áreas de novas competências new color (por oposição às white color e blue color), com grande enfoque técnico especializado, que estão entre os níveis três e seis do Quadro Europeu de Qualificações (EQF).

1. Automação e programação
As competências “tradicionais e técnicas” do 4.0 – automação, robótica, programação, cibersegurança, inteligência artificial, manufatura aditiva, 3d printing, big data, competências digitais, comando de drones, robots móveis.

2. Gestão de redes, pessoas e risco
Gestão de redes, gestão de pessoas e equipas e gestão de projectos, gestão de redes sociais, e-marketing, gestão negócio orientado para cliente (CRM, estratégia, internacionalização), gestão operações, gestão do risco.

3. Optimização e eficiência
Recolha, análise, tratamentode dados (data integrity e smart data), monitorização e disponibilização, ongoing dados (smart), controlo de qualidade, gestão de eficiência (lean, 6sigma).

4. Competências verdes e de sustentabilidade
Gestão ambiental (3R, economia circular), gestão “verde” de tecnologia e recursos (e-waste).

5. Design de produto
Desenvolvimento de produto, design thinking.

6. Competências críticas
As chamadas soft skills que, na realidade, são hard skills abarcam o empreendedorismo, a inovação, criatividade, inteligência emocional, comunicação, colaboração, línguas, aprender a aprender, resolução de problemas, pensamento crítico, competências digitais (pegada digital), diversidade e tolerância, responsabilidade.

 

Era 4.0: uma revolução para as empresas

Quando falamos em revolução e “evolução 4.0” da economia, estamos também a falar de uma série de mudanças para as empresas:

– A digitalização de processos de produção (bens e serviços) tendo por base plataformas digitais comunicantes, ao longo da cadeia de valor (processo, equipamentos e pessoas);

– A implementação de novos modelos de negócio suportados nas tecnologias digitais e na tecnologia, mais focada no cliente, implicando maior eficácia de recursos e maior eficiência de resultados na satisfação de clientes;

– A empresa alarga o seu mercado (e-commerce), internacionaliza-se, consegue reduzir custos de processo e aumentar mais-valias nos serviços prestados (mais humanos, por mais e melhores pessoas);

– A economia digital, suportada na tecnologia e nas tecnologias digitais, implica, antes de mais, ou em simultâneo, uma reformulação (revolução ou evolução do modelo de negócio). Não é possível ter o “melhor de dois mundos” sem mudanças internas ao nível da gestão, dos processos e modelos de controlo e monitorização.

 

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